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Treino

A Importância Dos Espaços De Fitness LGBTQ

A Importância Dos Espaços De Fitness LGBTQ
Tatiana Fernandes Coelho
Escritor4 meses Atrás
Ver o perfil de Tatiana Fernandes Coelho
Escrito porJoni McMullenInfelizmente, é uma realidade que os membros da comunidade LGBTQ são, tendencialmente, mais suscetíveis a problemas de saúde mental. Segundo um estudo da Stonewall, realizado em 2022, 50% das pessoas LBGTQ sofrem de depressão e quase 50% das pessoas transsexuais já atentaram contra a própria vida.Para além disso, as estatísticas mostram que, nos últimos 12 meses, cerca de metade dos britânicos LGBTQ+ sofre ou tem diagnóstico de uma condição de saúde mental, em comparação com apenas um terço da restante população.

James Kearslake, fundador da LGBTQ Wellness, uma organização destinada a apoiar a comunidade LGBTQ nas questões relacionadas com a saúde mental, está empenhado em criar espaços de treino seguros, nos quais as pessoas LGBTQ possam usufruir de modalidades de condicionamento físico, como forma de lidarem com os problemas de saúde mental.

O que é a LGBTQ Wellness?

A LGBTQ Wellness é uma organização fundada com o objetivo de salvar vidas na comunidade LGBTQ. Este grupo de apoio oferece treinos e publica recursos gratuitos no seu website, com o intuito de ajudar as pessoas LGBTQ a cultivarem o bem-estar e a saúde mental, através do exercício físico.James explica que:
“Não somos terapeutas nem conselheiros e não fornecemos medicamentos. Esta abordagem pode ser uma ajuda, mas nós pretendemos dar às pessoas um propósito adicional, criando espaços que permitam que elas se sintam seguras. Assim sendo, mesmo que a sua saúde mental esteja menos bem, podem fazer, por exemplo, as nossas aulas de ioga ou de spinning, e não precisam de mais nada. Basta apenas sentarem-se e ficarem cheios de energia.”
A LGBTQ Wellness reconhece que a saúde mental é uma das principais preocupações da comunidade LGBTQ. A organização oferece apoio e recursos para os membros que se estejam a debater com problemas de saúde mental. Ao oferecer um ambiente de suporte seguro, a organização espera ajudar as pessoas LBGTQ a se sentirem mais conectadas e menos isoladas.
James é solidário com as dificuldades que muitos membros LGBTQ enfrentam:

“A formatação que recebemos desde muito cedo é que somos diferentes e não somos como toda a gente. E embora tenhamos mais direitos hoje em dia, ainda existe uma crença profundamente enraizada de que estamos errados e de que não somos normais. Está demasiado intricado na comunidade, a um nível muito profundo.”

Infelizmente, isto pode conduzir a outros problemas, tais como a dependência de substâncias químicas. Existe uma considerável falta de diretrizes e orientação que ajudem as pessoas a sentirem-se seguras. James acredita que o abuso de substâncias está relacionado com problemas de saúde mental dentro da comunidade LGBTQ, o que muitas vezes leva as pessoas mais vulneráveis a atentarem contra a própria vida.Mas o fundador está empenhado em mudar isto:

“É preciso começar a ensinar as pessoas a terem um relacionamento saudável com a estranha cultura que criámos.”

Como é que a atividade física pode ajudar?

James acredita que o condicionamento físico pode ser uma ferramenta importante para a saúde mental e para o bem-estar da comunidade LGBTQ. Ele considera o condicionamento físico uma forma de conectar as pessoas, construir relacionamentos num ambiente seguro e inclusivo e de dar o primeiro passo em direção ao bem-estar.

“Nós, gradualmente, convencemos as pessoas a fazerem exercício físico e a sentirem-se bem – e logo a seguir começam a reparar no resto do trabalho que fazemos, o da saúde mental, do bem-estar e do autocuidado. As pessoas dizem: 'Oh, há aqui mais qualquer coisa'. O condicionamento físico é o primeiro bloco de construção e, em seguida, avançamos mais um pouco.”

A LGBTQ Wellness oferece uma ampla variedade de aulas, desde o ioga ao spinning, para disponibilizar o máximo de opções possível. Pela sua experiência pessoal, James acredita que fazer spinning é uma forma de diversão e de libertação, enquanto que o ioga é mais sobre introspeção e autocuidado.

Porque é que os espaços de treino especializados são importantes para a comunidade LGBTQ?

Os membros da comunidade LGBTQ podem enfrentar alguma pressão adicional quando tentam enveredar no mundo do fitness. Mas as diferentes orientações sexuais e identidades de género encontram diferentes barreiras:

“Os gays e cisgénero têm balneários onde geralmente se sentem confortáveis. Mas a barreira mental que construíram, por terem passado toda a vida a sentir que não se encaixam, é inerente ao ser humano. É preciso que superem esta insegurança.”

Já para as pessoas transexuais e não-binárias, os obstáculos costumam ser tanto físicos quanto mentais:

“As dificuldades são maiores para estes membros da comunidade, uma vez que muitos deles vivem com uma disforia de género fundamental somática. Razão pela qual desenvolvem uma espécie de desconexão com o próprio corpo. Para além disso, não existem balneários específicos para estas pessoas. Uma pessoa transgénero em transição, ou um homem transgénero que não esteja em transição, se estiver a usar uma faixa de contenção, vai imediatamente sentir-se constrangido, pois pensa que toda a gente irá olhar. Isto é motivo suficiente para o fracasso, logo desde início.”

Para as pessoas LGBTQ, todas estas condicionantes podem tornar a ida ao ginásio numa tarefa difícil, pelo que, criar espaços seguros e inclusivos é fundamental. E, até ao momento, o empenho de James tem tido um enorme sucesso:

“Tentar encorajar as pessoas a aderirem ao ginásio, quando a sua preocupação é a de não se misturarem, é difícil. Assim, criámos um espaço para treinarem e para lhes apresentar. Muitas pessoas já conseguiram inscrever-se no ginásio e treinam por conta própria. É isso que queremos.”

Que mais podem os ginásios fazer pela comunidade LGBTQ?

James acredita que os ginásios precisam fazer mais para criar um ambiente acolhedor e inclusivo. A parceria com grupos como a LGBTQ Wellness é o primeiro passo nesse sentido. Os espaços podem também oferecer aulas especificamente concebidas para a comunidade LGBTQ, que devem ser estruturadas da forma certa para terem um impacto positivo. James defende:

“Cativar as pessoas LGBTQ não passa apenas pelo condicionamento físico. Existem barreiras que é preciso superar para que as pessoas se sintam bem-vindas. Não basta apenas colocar uma bandeira de arco-íris numa aula e achar que isso leva as pessoas até a porta.”

Criar um ambiente de treino inclusivo para pessoas LGBTQ exige entender e lidar com os desafios únicos que elas enfrentam. Ao tomar estas medidas, os ginásios podem desempenhar um papel valioso na melhoria da saúde física e mental dos membros da comunidade LGBTQ.

Ioga com a LGBTQ Wellness

Para os membros da comunidade LGBTQ, encontrar um ginásio ou um espaço de fitness que seja recetivo e inclusivo pode ser um desafio.

James teve essa experiência em primeira mão, quando tentou encontrar um espaço para alojar as aulas da LGBTQ Wellness, percebendo que alguns espaços nem sequer respondiam aos seus pedidos. Felizmente, a organização encontrou um lar no Kings Street Gym, que fez um esforço ativo para criar um ambiente acolhedor para todos.

“Este ginásio é extremamente receptivo e inclusivo. A sua equipa fez um esforço ativo para o tornar num espaço seguro para pessoas LGBTQ, no exato momento em que entram na porta. Eu acho isso admirável. E eu não tive isso em todos os espaços.”

Tivemos a oportunidade de testemunhar o excelente trabalho que James e a organização LGBTQ Wellness fazem, quando decidimos estar presentes na aula de ioga de terça-feira à noite. A aula começou com uma troca de palavras estimulante com o instrutor Trevor, que deu oportunidade para os alunos regulares conversarem e os alunos recém-chegados se sentirem confortáveis no novo ambiente.

A aula de ioga foi desafiante e o ambiente era completamente livre de julgamento. Trevor falou connosco o tempo todo, encorajando-nos a sorrir quando as posições se tornavam difíceis ou a fazer piadas quando ficavam embaraçosas. É difícil manter uma cara séria quando se está a fazer a pose de criança. Os últimos 10 minutos da aula foram dedicados à meditação - uma forma relaxante e perfeitamente adequada de terminar a aula. No fim, tive oportunidade de conversar com o Trevor.

“Quero garantir que isto é divertido, prazeroso e desafiador ao mesmo tempo. Celebrar o amor, celebrar o movimento, celebrar a forma como nos integramos. Nós reunimo-nos apenas duas vezes por mês, pelo que, quando estamos juntos, quero que seja agradável para todos.”

Estes espaços seguros funcionam?

James é inflexível no que toca a espaços seguros. Ele emociona-se ao falar sobre o impacto que viu estes espaços causarem nos membros da comunidade LGBTQ.

“As pessoas estão muito gratas pelo que criámos para elas. Agora elas também fazem parte desta jornada e também a apoiam - todos dão o seu contributo para a impulsionar e a fazer acontecer.”

O feedback que James recebe dos participantes agradecidos é mais uma prova do efeito positivo destes espaços seguros.

“Não há uma semana em que eu não receba mensagens de pessoas a dizer: “O que estás a criar acabou de mudar a minha vida”. Eu criei porque as pessoas precisavam disso.”

Se precisares de um conselho…

Para aqueles que se sentem afastados da atividade física, James diz que há sempre uma forma de começar a treinar e cultivar o bem-estar, independentemente dos obstáculos.

“Posso dar a minha palavra em como há sempre um caminho para alcançar a boa forma física e o bem-estar. Não importa a luta individual ou a dúvida que estejas a enfrentar em relação à tua identidade sexual ou de género - seja ela mental, física ou por falta de um espaço para treinar - há sempre forma de podermos lutar. Só precisas ganhar coragem para o fazer. E se precisares de alguma coisa, eu posso ajudar-te ao longo do caminho.”

Mensagem Final

O condicionamento físico pode ser uma ferramenta valiosa para as pessoas da comunidade LGBTQ que lutam com a sua saúde mental e o seu bem-estar. Manter o corpo em movimento, integrar e construir um espírito de comunidade, ajuda os membros a ganharem confiança e a cuidarem da sua saúde mental.

James sabe disso melhor que ninguém, pois conhece em primeira mão de que forma o condicionamento físico pode ajudar a salvar a vida das pessoas LGBTQ. Se quiseres entrar em contato com o James ou com a organização LGBTQ Wellness, podes fazê-lo através do site da LGBTQ Wellness ou na página do Instagram.

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"NOTA: Os nossos artigos têm um propósito meramente informativo e educacional e não devem ser usados como conselhos médicos ou de saúde. Consulta sempre um profissional especializado antes de tomares quaisquer suplementos nutricionais, de iniciares um novo programa de treino ou alterares a tua dieta."

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Tatiana é Doutorada em Ciências Médicas e da Saúde, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tendo, ao longo da sua carreira de investigação científica, sido autora de artigos académicos publicados em revistas internacionais, na área da Genética e da Biologia Molecular.

A sua experiência como Técnica Especialista em Exercício Físico e Coach L-1 de CrossFit, potencia a sua paixão por todas as vertentes da otimização da performance atlética na prática desportiva, tendo, inclusivamente, escrito alguns artigos de revisão sobre a influência do background genético na performance e resistência físicas, na adaptabilidade ao treino e na resposta fisiológica à nutrição e suplementação desportivas.

Mais informações sobre Tatiana Fernandes Coelho: LinkedIn, ORCID e PubMed.

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